Uma reflexão psicanalítica sobre desejo, escolha e a necessidade de ser escolhido.
Eu estou feliz? Eu sou feliz? Ela me faz feliz? Ele me faz feliz?
Parece banal, mas muitas pessoas são engolidas pelos afazeres do cotidiano e pela pressa incessante
de realizar tarefas, e questionamentos simples como esses acabam passando despercebidos.
Sobre felicidade, vale destacar que ninguém é feliz todos os dias, o dia todo. Felicidade é um
estado. Em um único dia, você pode sentir vários momentos de felicidade juntamente com outros
sentimentos. A cobrança para ser feliz o tempo todo ganhou força com as redes sociais, lugar onde
parece que todos vivem no mundo encantado da felicidade. No fundo, você já sabe que isso não
existe, mas, por algum motivo, ainda almeja aquela felicidade do Instagram dos outros.
Entendendo a realidade dos fatos e partindo do princípio de que não somos robôs, relações são
complexas e necessitam de maturidade emocional para sustentá-las. O que acontece é que vejo, na
clínica, uma quantidade considerável de relacionamentos terminando — ou fadados ao fracasso —
simplesmente porque não supriram as expectativas do parceiro.
Isso engloba uma série de coisas: a capacidade do sujeito de lidar com frustrações, tendências
neuróticas descontroladas, psicopatologias mal diagnosticadas, diagnósticos equivocados,
imaturidade emocional, enfim. Eu poderia continuar aqui, mas vou focar em uma única pergunta
para você:
Você está vivendo esse seu relacionamento atual com a pessoa que está ao seu lado ou com a
pessoa que você achou que ela fosse?
Muitas vezes, idealizamos no parceiro características e qualidades que ele mesmo nunca teve. Mas a
nossa vontade de viver aquilo era tão grande que colocamos no outro expectativas que ele nunca
será capaz de sustentar. Da mesma forma, você também pode não conseguir sustentar o fato de que
foi você mesmo quem errou desde o início, apostando errado.
O desejo é uma força potente. Atrapalha, engana, confunde a escolha. E a verdade é que escolher é
tomar uma decisão. Tomar uma decisão requer tempo e, principalmente, maturidade emocional.
Você se considera maduro emocionalmente o suficiente para fazer uma escolha? Para sustentar a sua
escolha? Para resolver uma escolha errada?
Se sua resposta foi “não” para essas três perguntas, você precisa, antes de qualquer coisa, cuidar de
você. Não é egoísmo. É sobrevivência.
Existe também o desejo de ser escolhido. E aí essa pessoa pode estar disposta a pagar caro pelo
simples fato de ter alguém, de poder dizer: “essa pessoa me escolheu”.
Mas esse sujeito não colocou como prioridade os seus inegociáveis. Ele simplesmente quis ser
escolhido.
Quando fazemos uma escolha com a intenção de apenas sermos escolhidos, colocamos a nossa
própria vontade em segundo plano. É um rebaixamento moral grande, que fere. Fere muito.Por vezes, pessoas se encontram nessa situação e nem sabem que estão nela. É muito comum você
ler um texto como este e ele gerar alguma identificação em você ou fazer você pensar em alguém
que conhece.
Essa é a minha intenção: informar para que você seja capaz de amadurecer emocionalmente e, com
isso, sustentar as suas decisões.
Um ego fortalecido não precisa se perder no outro para se sentir inteiro.
Um ego fortalecido consegue perder um vínculo sem perder a si mesmo.
Fernanda Sanson
Psicanalista Clínica
Psicanálise e relações contemporâneas
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento individualizado por profissional qualificado.